23 de julho de 2014

Visualizado em...

E nesses dias sinto os efeitos do amor volátil, talvez do líquido de que falava Bauman. Sinto os efeitos de quem não se compromete com o outro e de quem deixou um amontoado de dados digitais agir em seu nome.
Eu venho sentindo que substituíram os abraços por likes, os conselhos e conversas carinhosas por comentários estandardizados que parecem dizer sempre a mesma coisa... Os risos gostosos nas caras rosadas viraram "kkk"s sem sentido.
Não, ninguém vai se importar se você não postar nas redes sociais. Ninguém vai querer saber se você está bem, se você não disser com todas as letras que está gripado, foi assaltado, está desempregado, sua mulher te deu um pé no rabo...
Não, ninguém vai te ajudar se você não implorar, se você não mandar um inbox pedindo ajuda (porque inbox é a coisa mais próxima de uma conversa franca que se tem atualmente).
Portanto, quando as pessoas me perguntam o porquê de eu não interagir muito mais através das redes sociais, tenho apenas uma coisa a dizer: interajo na medida que isso me sirva como forma de expressão, fruição ou veículo de informação (nesse último caso, a partir de páginas específicas de notícias, instituições ou artistas). Todo o resto tem me parecido incrivelmente tedioso atualmente.
Lembro-me que na época do agora extinto Orkut eu cheguei a redigir - em papel - mensagens para os meus amigos mais próximos dizendo o que senti quando os conheci e o que representavam pra mim. Pra muitos pode soar piegas demais, pra outros pode parecer até que eu tava forçando a barra, mas a verdade é que sinto saudades do compromisso das pessoas com os outros e é por isso que eu realmente quero ser professor um dia. Em teoria, é uma das profissões na qual você tem compromisso direto em se dedicar ao outro. Digo "em teoria" porque todos nós sabemos que nem sempre é assim.
Sei que muitas vezes é difícil não recorrer às redes sociais para interagir, principalmente no que se refere à distância física entre duas pessoas. Mas talvez a questão não seja exatamente as redes socias como meio, mas sim como as pessoas lidam com ela, o fato dos amigos se tornarem apenas insígnias no seu mosaico de contatos. Você assume a ideia de que estarão lá pra sempre caso precise ou não deles.
Talvez isso não faça sentido algum, talvez faça. E talvez eu esteja escrevendo isso apenas motivado pelas saudades que tenho de tantos que sumiram em meio a esse monte de dados.
A única coisa que sei é que verdadeiramente os amo ou amei. E se há alguma dúvida nisso... bem, mande-me um inbox mesmo, caso não haja outra maneira. :/

Thales Estefani


A respeito do tema, assistam a esse vídeo de uma entrevista do Zygmunt Bauman:

7 comentários:

Hugo Dalmon. disse...

Essa ponto de vista do Bauman é bacanérrimo. Mas, em relação a palavra AMIGO, temos uma faca de dois gumes.
Porque se a gente parar pra pensar na evolução da língua, verificamos que a palavra AMIGO tem significados sincrônicos atualmente (Chamamos de AMIGO até um desconhecido na rua que vai nos informar algo, mas a entonação, o ethos, tudo isso, é que nos faz agregar o valor...). A palavra AMOR já teve seu período de sincrônia numa linha do tempo linguística: Por exemplo, o amor citado por Apostolo Paulo era o significado latente da palavra, no caso, a gratidão, a paz, o desejo do bem acima de tudo! Atualmente, a palavra AMOR tem mais valor semântico agregado a um sentimento conjugal. Ou a um sentimento de posse, de adoração.

Agora, quanto ao seu texto, achei fantástico o ponto de vista. Infelizmente, o Facebook se tornou um catálogo de amigos(no sentido de companheiros pra atividades ou pra prozas casuais).
Enfim, sua articulação e argumentação sempre linda e as escolhas de título de dar vontade de te abraçar por 30 minutos...
*-*

Bjão, Thatá!!!

Hugo Dalmon. disse...

Prosas

Thales "Chaun" Estefani disse...

Poxa, Huguito! Adorei o comentário. Não podia esperar menos de um escritor né?! :D
Entendo o que você disse sobre a evolução da língua e realmente tens razão. Mas, não sei porque acho que ainda prefiro a ideia de AMOR do Apóstolo Paulo, mesmo em desuso. :P

Muito obrigado pelas palavras e por ser atencioso sempre!
Beijão!

Reynaldo Loio disse...

Thales,
Tive até que respirar fundo depois dessa provocação insuportável e até mesmo constrangedora, texto fantástico e que me trouxe reflexão! Já havia lido algumas coisas suas, mas não no blog, agora tô vendo e apreciando...
Bauman traz uma gama de conceitos e visões sobre a pós modernidade ao pé que retroalimenta essa ansiedade e medo do que vivemos, sua analogia com a liquidez das relações humanas nas redes sociais ficou maravilhosa, penso que o esse estado volátil que nos encontramos é fruto e consequência dos pilares da sociedade do consumo e da informação, sabemos claramente que as coisas no geral se tornaram mercadoria de consumo e não é diferente com as relações, a rede se alimenta de "produtos-seres","perfis-virtuais", uma espécie de subproduto virtual que criamos de nós mesmo, onde o exemplo do "ter" 500 amigos cabe perfeitamente, só tá gritando em minha cabeça tudo aqui, as correlações das coisas que Bauman apresenta.
É um fato que estamos na transição do ser pro ter, de uma espécie de solidez humano para uma volatilidade líquida, "estamos" em forma de água, só que não conseguimos encher nenhum recipiente, porque nem sabemos um caminho pra isso!
Obrigado por "acabar" positivamente com minha noite! Forte Abraço. Rey

Leandro Domingos disse...

Fico até constrangido de comentar depois de tanta filosofia e conhecimento compartilhado. Mas tive que fazê-lo pois o texto me incomodou muito, um incômodo ruim mesmo, mas necessário. Já havia comentado contigo que em uma das minhas sessões de terapia comentei o fato de sentir falta de ter mais amigos. Minha terapeuta me desafiou a enfrentar isso. Não podemos controlar quem entra e sai da nossa vida. E a vida é movimento, pessoas vêm e vão todo o tempo, e precisamos saber lidar com as perdas, "let go". Não consigo ainda admitir isso. Tento manter todos por perto seja através do Facebook, whatsapp... Mas é tão frio! E essa frieza as vezes toma conta do relacionamento e o tempo trata de cuidar do restante do afastamento. Mas quando se ama, muito, muito mesmo, o tempo, a tecnologia fria, nem as adversidades são capazes de afastar duas pessoas. O AMOR é a chave. Infelizmente somos limitados e não conseguimos amar todos que queremos... Ou que mereciam ser amados... Ou até amamos quem não merece... Mas quando a reciprocidade acontece, aquele encontro vai durar. Eu te amo muito meu amigo, como escolhi amar outras pessoas que fazem a vida valer a pena. Pois o que é q vida sem amor?

Thales "Chaun" Estefani disse...

Poxa, Reynaldo... Fico muito feliz que meu texto "Visualizado em..." tenha te trazido uma reflexão tão profunda como a que colocou em seu comentário! :D
Bauman foi um dos caras que, durante meu período na faculdade, me fez respirar mais daquilo que eu já buscava antes no ar e não sabia onde encontrar. E estou de total acordo que essa liquidez das relações, da qual falei no meu texto, é fruto da sociedade de consumo, onde nós mesmos somos "objetizados" e nos tornamos meros ícones nas redes sociais.
Você foi ímpar no seu comentário! Muito obrigado, mesmo!
Agradeço a atenção! :)
Agora to seguindo seu blog também. Vou acompanhar seus escritos.
Abração!!!

Thales "Chaun" Estefani disse...

Poxa, Lê. Muito obrigado pelo comentário!
Eu tenho o mesmo ímpeto que você descreveu. Sempre tento manter todos os meus amigos (e até os que são só colegas) por perto, mesmo que seja por meios eletrônicos. Mas, sim, como você mesmo disse, esses contatos são frios demais.
Tenho algumas relações de amizades desgastadas pela distância que nenhuma rede social pôde suportar, mas continuo sendo romântico como você e acreditando que se o laço é forte, o sentimento persiste.
Também te amo muito, meu amigo!
E sobre a sua retórica final... o que é a vida sem amor? Vou matá-la agora com uma humilde e romântica opinião: é nada! :D :*